Quando fomos escolher um nome para a banda, há distantes 28 anos, não sabíamos de quase nada. Não sabíamos tocar, nem fazer músicas, nem nada sobre o mercado musical. Mas sabíamos de uma coisa: que precisávamos de um capital inicial para comprar nossos instrumentos, fazer nossas camisetas e posters, produzir nossos shows e agitar Brasília.

Hum, pensamos, já que precisamos tanto de um capital inicial porque não nos chamamos de… Capital Inicial? Simples, brilhante e horrível. Mas, para a nossa própria surpresa, colou – e hoje, não poderia haver um nome melhor.

Em 1998, trabalhamos com David Z, produtor americano que nunca havia ouvido falar na gente até então. Um dia, durante as gravações, estávamos conversando sobre o nome que daríamos ao CD – posteriormente intitulado Atrás dos Olhos. Ele perguntou o que Capital Inicial queria dizer, e quando soube que era initial capital, a primeira coisa que veio a sua mente foi Marx e seu livro mais famoso, Das Kapital – em português, “O Capital”. O nome não vingou à época, mas, quando comecei a pensar sobre o momento que estamos vivendo, o título me pareceu perfeito.

No Brasil, estamos às vésperas de eleições presidenciais, e a candidata da situação foi, na juventude, uma guerrilheira marxista. O seu principal oposicionista foi exilado por defender ideias semelhantes. Pessoas que pegaram em armas, que foram perseguidas, caladas e mesmo massacradas por acreditarem numa ideia, hoje têm a possibilidade de conquistar o poder e impor mudanças a nossa sociedade baseadas nessas mesmas convicções.

Para ambos, Das Kapital foi (ou é) sua bíblia, uma referência para todo o pensar e agir do século XX. Século que nos legou uma crise sem precedentes, que começamos a perceber apenas agora.

Estamos vivendo as consequências da expansão extraordinária do Capital, entusiasmados ao mesmo tempo que assombrados com seu poder de criação e destruição, para o ser humano e o planeta. Num mundo onde alguns falam em ‘fim da Hstória’, é importante lembrar que para bilhões a História não começou ainda. Ou que talvez já tenha acabado antes mesmo de começar.

Eu gosto desse nome porque ele se refere a ‘ideias’, ao invés de sentimentos, paixões ou coisas. Quando a quantidade de informação, entretenimento e bens materiais cresce mais rápido do que a nossa capacidade de compreendê-los e usufruí-los, é bom poder parar para (tentar) pensar no que realmente importa.

Fê Lemos

Fê Lemos gravando bateria - Na Cena Studios Nov/09